A Ilusão da Autonomia: O Sujeito que Quer Parar, Mas Não Consegue
- Luciano Ribeiro
- 29 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 22 de dez. de 2025
O bem que eu quero contra a falta que existe em mim.

Quantas vezes ouvimos alguém dizer: "Se ele realmente quisesse, já teria parado"? Essa frase carrega um julgamento comum, e equivocado, sobre a dependência química. Por trás dela, está a ideia de que bastaria força de vontade para largar a droga. No entanto, a clínica revela algo mais complexo: a vontade consciente de parar não é suficiente quando o inconsciente insiste em repetir.
Neste artigo, vamos explorar a tensão entre o desejo de mudar e a compulsão de repetir, mostrando como a psicanálise pode nos ajudar a entender essa aparente contradição.
O Sujeito Dividido: Eu quero, mas não consigo.
Freud nos mostra que o sujeito não é senhor em sua própria casa. Ou seja, mesmo que uma parte de nós deseje algo (parar, mudar, ser livre), há outra parte inconsciente que opera silenciosamente em outra direção.
Na dependência, isso aparece claramente:
O sujeito sofre com o uso.
Deseja parar, se culpa, se compromete.
Mas, ainda assim, repete o uso.
Por quê? Porque existe um ganho secundário, simbólico, que o sujeito ainda não consegue abrir mão. A droga funciona como “resposta” à angústia, à falta, ao vazio.
A armadilha da autonomia
A sociedade valoriza a autonomia, o autocontrole, a ideia de que somos donos de nossos atos. Mas o dependente desmascara essa ilusão. Ele revela que nem sempre decidimos com liberdade, há forças internas que nos empurram para repetir o mesmo roteiro, mesmo com sofrimento.
Essa é uma das maiores dores do sujeito em recuperação: sentir que quer, mas não consegue. Isso não é fraqueza. É estrutura.
O lugar da droga como solução
Na perspectiva psicanalítica, a droga não é apenas o problema, ela também é uma solução. Um recurso mal-adaptado que tenta aplacar a angústia, silenciar a falta, preencher algo impossível.
O uso funciona como:
Uma anestesia simbólica.
Um escape do excesso de realidade.
Uma forma de calar o desejo.
Enquanto a droga ocupa esse lugar, não basta querer parar: é preciso criar outra forma de lidar com o que ela tentava encobrir.
Como a clínica psicanalítica pode ajudar?
O espaço clínico não trabalha com conselhos prontos, mas com escuta. Ele permite que o sujeito:
Nomeie seu sintoma.
Reconheça sua repetição.
Descubra qual função a droga cumpre em sua história.
Só assim é possível sair da lógica da força de vontade e entrar no campo da responsabilidade simbólica, onde parar de usar passa por reorganizar o sentido da própria vida.
Conclusão
A vontade de parar não é mentira. O que acontece é que, muitas vezes, ela está em conflito com forças internas mais profundas. Reconhecer essa divisão não é fracasso, é o início da escuta e da mudança.
Quem deseja verdadeiramente se libertar precisa mais do que disciplina: precisa mergulhar em si mesmo.
Por Luciano Ribeiro Terapeuta em Dependência Química | Estudante de Psicanálise
Baixe o ebook gratuito : Compulsão, quando o sintoma sobrevive a abstinência.
Faça parte do meu grupo de WhatsApp gratuito.



Comentários