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Por que o dependente sente vazio sem a intensidade da droga?


Existe algo que muitos dependentes descobrem depois que param de usar:

a vida comum parece sem cor.

O silêncio incomoda.

A rotina pesa.

As coisas simples parecem insuficientes.

Não porque a vida perdeu valor,

mas porque o corpo e a mente se acostumaram à intensidade.


O cérebro treinado para o excesso.


A dependência não altera apenas comportamentos.

Ela altera a forma como o sujeito experimenta prazer, estímulo e presença.

A droga cria:

aceleração,

descarga rápida,

excesso de dopamina,

sensação intensa de alívio ou euforia.

Com o tempo, o cérebro começa a funcionar em comparação com esse pico.

E tudo o que é natural passa a parecer pequeno demais.


O problema não é só químico.


Existe também uma questão psíquica.

Muitos dependentes viveram a vida inteira tentando fugir:

do vazio,

do silêncio,

da angústia,

da sensação de não sentir nada.


A intensidade da droga não servia apenas para dar prazer.


Servia para impedir o encontro consigo mesmo.

Quando ela sai, sobra um espaço interno que antes era constantemente preenchido por estímulo.

E esse espaço pode ser vivido como vazio.


A dificuldade de suportar o comum.


A recuperação exige uma aprendizagem difícil:

voltar a sentir prazer no simples.

Mas o sujeito acostumado à intensidade vive o cotidiano como lentidão:

um filme parece parado,

uma conversa parece sem graça,

um domingo parece insuportável,

o silêncio parece abandono.

Isso não significa que ele não queira melhorar.

Significa que sua sensibilidade foi reorganizada pelo excesso.


Intensidade não é presença.


Há um ponto importante aqui:

intensidade e presença não são a mesma coisa.

A droga oferece intensidade.

Mas retira profundidade.

Ela acelera sensações, mas empobrece a experiência emocional real.


O sujeito sente muito, mas vive pouco.

Por isso, na recuperação, existe uma sensação estranha: a vida parece mais calma, mas também mais vazia.

E é justamente aí que começa o trabalho mais profundo.


Aprender a habitar o vazio.


A recuperação não é aprender a viver eufórico sem droga.

É aprender a existir sem precisar de intensidade constante.

Isso significa:

tolerar silêncio,

criar vínculo com o cotidiano,

redescobrir prazeres pequenos,

sustentar frustração,

desacelerar o corpo e a mente.

No começo, isso parece pouco.

Depois, começa a parecer paz.


Conclusão


O dependente muitas vezes sente vazio sem intensidade porque sua mente se acostumou ao excesso químico e emocional.

Mas existe uma diferença entre uma vida sem estímulo e uma vida sem sentido.

A recuperação verdadeira começa quando o sujeito descobre que não precisa viver em explosão permanente para sentir que está vivo.

Às vezes, o que parecia vazio era apenas silêncio.

E o silêncio, quando deixa de assustar, pode finalmente virar espaço para existir.


Texto e reflexao: Luciano Ribeiro

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06 de mai.
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