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O Silêncio que Adoece: como a ausência de fala mantém vivo o sintoma

Atualizado: 27 de dez. de 2025


O Silêncio que Adoece: como a ausência de fala mantém vivo o sintoma


Na clínica da dependência química, ouvimos muitas histórias que nunca foram realmente contadas. Experiências dolorosas, segredos familiares, vergonhas antigas, guardados como se falar fosse perigoso. No entanto, o silêncio não é neutro: ele alimenta o sintoma.


O sintoma como linguagem


Freud já nos alertava que o sintoma é uma forma de expressão. Quando não podemos falar, o corpo e o comportamento falam por nós. No caso da dependência química, a droga funciona como um substituto da fala, uma tentativa de “dizer” algo que não encontrou palavras.

O silêncio não elimina a dor; ele a mantém viva, girando em círculos no inconsciente.


Segredos e repetições


Em muitas famílias, certos assuntos são interditados: violência, traições, abusos, perdas. O dependente carrega, muitas vezes, histórias que não são só dele, mas herdadas, dores que atravessam gerações. Quando essas narrativas não encontram espaço para serem elaboradas, o sujeito recorre a soluções imediatas: a droga, o álcool, o excesso.

Lacan diria que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Isso significa que o que não é dito busca outra forma de se inscrever na vida do sujeito e, na adicção, essa inscrição se dá no corpo e no ato.


Por que falar transforma


Quando o dependente começa a falar de si, não apenas do uso, mas de sua história, de suas faltas, de suas dores, o sintoma perde força. Isso não acontece de um dia para o outro, mas a fala abre caminhos simbólicos para que o desejo circule e a compulsão encontre outros destinos.

Na psicanálise, não damos “conselhos” sobre o que fazer. Criamos um espaço para que o sujeito se ouça, para que possa reconhecer o que sustenta o sintoma e, assim, escrever uma nova narrativa sobre si mesmo.


O perigo do silêncio na recuperação


Muitos acreditam que, na recuperação, basta “não usar” e “seguir regras”. Mas se o silêncio continua, a lógica que sustenta a dependência permanece intacta. O sujeito pode até estar abstinente, mas preso à mesma estrutura de repetição, pronto para que o sintoma encontre outra forma de aparecer.


Conclusão


O silêncio pode parecer seguro, mas, na verdade, é cúmplice do sintoma. Falar não é apenas desabafar; é produzir sentido, é reescrever a própria história. E, quando a fala entra, a droga começa a perder o seu lugar.


Por Luciano Ribeiro Terapeuta em Dependência Química | Estudante de Psicanálise


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