Quando a sobriedade se torna um novo sintoma.
- Luciano Ribeiro
- 7 de ago. de 2025
- 2 min de leitura

A armadilha da sobriedade perfeita.
A saída da droga é uma conquista importante, mas não garante por si só uma transformação subjetiva. Às vezes, o sujeito que deixa de usar passa a se agarrar a um novo ideal de perfeição: torna-se excessivamente moralista, rígido, controlador — com os outros e consigo mesmo.
Essa nova postura pode ser, na verdade, uma defesa contra a angústia. Ele troca o sintoma-droga por um sintoma mais aceito socialmente: a obsessão por estar sempre certo, sempre no controle, sempre no "caminho certo".
A abstinência como performance.
Freud nos ensina que o sintoma pode se deslocar. A droga pode sair de cena, mas o que ela sustentava dentro do sujeito — a tentativa de lidar com a falta, com a angústia, com o desejo — continua lá.Lacan aprofunda isso ao mostrar que o sintoma pode se camuflar em formas aparentemente saudáveis.
O sujeito não usa mais, mas agora está viciado em “estar limpo”. Vive com medo de falhar, sente-se superior aos que ainda estão em uso, julga os outros, evita qualquer afeto que lhe exponha vulnerabilidade.A sobriedade vira um personagem.
Troca de sintoma: da substância à norma.
Isso é o que chamamos de sintoma deslocado. A droga, que antes ocupava o lugar de defesa, agora dá lugar à norma.Exemplos comuns:
O dependente que vira um “evangelizador” da sobriedade, mas sem espaço para dúvida ou fragilidade.
O sujeito que controla todos os seus hábitos alimentares, sexuais e de tempo como se qualquer desvio fosse recaída.
Aquele que troca a droga por fanatismo religioso, excesso de academia, doutrinas rígidas ou "produtividade" obsessiva.
Essas novas formas podem ser socialmente valorizadas, mas ainda carregam a lógica da compulsão: excesso, repetição e ausência de escuta subjetiva.
O que a psicanálise propõe?
A psicanálise não condena a sobriedade — ela é necessária. Mas propõe ir além: sair da lógica da substituição compulsiva e caminhar para a simbolização.Não se trata apenas de parar de usar, mas de transformar a relação com o desejo, com a falta, com o sofrimento.
Ser sóbrio não pode ser só seguir regras externas — precisa ser também um reencontro com o próprio desejo, com a história pessoal, com a possibilidade de errar e recomeçar.
Conclusão
A sobriedade verdadeira é imperfeita.Ela não é um personagem rígido, mas uma travessia: entre o sintoma antigo e a construção de um novo sentido.Quando a rigidez substitui a droga, o sintoma apenas muda de roupa. Por isso, mais do que seguir o “certo”, é preciso escutar o que está vivo em você — e o que ainda grita em silêncio.
Por Luciano Ribeiro — Terapeuta em Dependência Química | Estudante de Psicanálise
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Sou um adicto em recuperação.
Concordo totalmente com tudo que foi falado no texto acima.