A Falta Estrutural e a Dependência Química: Por que Sempre Queremos “Mais”?
- Luciano Ribeiro
- 27 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de mar.

Por que o dependente químico nunca se satisfaz? Por que, mesmo depois de usar, ele quer sempre "mais"?
Essa é uma pergunta que atormenta familiares, profissionais e até o próprio dependente. Para responder, precisamos mergulhar em um conceito fundamental da psicanálise: a falta estrutural.
Sigmund Freud e Jacques Lacan, dois grandes nomes da psicanálise, nos ensinam que a falta não é um problema acidental, mas uma característica essencial da condição humana. E é a partir dela que podemos entender não só a dependência química, mas muitas outras formas de sofrimento psíquico.
O que é a falta estrutural?
Freud já dizia: “O homem não é senhor em sua própria casa”. Essa frase revela algo profundo: não somos seres completos, há sempre algo que nos escapa. Essa falta não é algo que aconteceu por acaso; ela faz parte de como nos constituímos como sujeitos.
Quando nascemos, somos pura necessidade. Dependemos totalmente do outro para sobreviver. Com o tempo, descobrimos que esse outro não nos dá tudo o que queremos, quando queremos. Surge, então, um vazio: não temos tudo, não somos tudo, nunca seremos tudo.
Esse vazio não é só falta de comida ou de cuidado; é uma falta simbólica, ligada ao nosso desejo.
Lacan vai além e afirma: “O desejo nasce da falta”. Em outras palavras, se fôssemos completos, não desejaríamos nada. É a falta que nos move, que nos faz buscar, sonhar, criar. Desejar é uma forma de lidar com a falta.
Desejo e compulsão: quando a falta não encontra um lugar simbólico
Nem todos conseguem lidar com a falta da mesma maneira. Algumas pessoas simbolizam essa falta através do desejo: estudam, amam, criam projetos. Outras, porém, não conseguem dar à falta um sentido simbólico e acabam tentando preenchê-la com objetos concretos.
É aí que surge a dependência química.Para o dependente, a droga aparece como uma promessa de completude, um preenchimento ilusório daquilo que falta. No momento do uso, ele sente uma espécie de “plenitude artificial”, uma anestesia da angústia.
Mas esse efeito dura pouco. Logo a falta retorna – e com ela, o desejo compulsivo de usar novamente. Freud chamava isso de “princípio do prazer”, que busca evitar o desprazer a qualquer custo, mesmo que isso cause sofrimento depois.
Lacan explica essa lógica com a ideia do gozo: quanto mais o sujeito busca um prazer absoluto, mais ele se perde, porque essa satisfação total é impossível. Por isso, quanto mais ele usa, mais falta sente. É um círculo vicioso.
A falta não é um defeito
Aqui está um ponto importante: a falta não é um defeito, não é algo para ser eliminado. Ela é constitutiva, faz parte de nós. O problema é quando tentamos calar essa falta a qualquer custo. A droga, assim como outros comportamentos compulsivos (sexo, compras, comida), é uma tentativa desesperada de tapar um buraco que não pode ser tapado.
Como lidar com isso?
A saída não está em preencher a falta, mas em significá-la, dar um lugar para ela na vida simbólica do sujeito. Isso se faz pelo desejo: criar, amar, se relacionar, ter projetos. A psicanálise não promete eliminar a falta, isso seria uma ilusão, mas ajuda o sujeito a encontrar um modo menos destrutivo de lidar com ela.
Conclusão
A dependência química não é apenas sobre a droga, é sobre a relação do sujeito com a sua falta. Quando entendemos isso, percebemos que o tratamento vai além da abstinência: é um trabalho de ressignificação, para que a pessoa possa transformar a falta em desejo e não em destruição.
Por Luciano Ribeiro Terapeuta em Dependência Química | Estudante de Psicanálise
Baixe o ebook gratuito : Compulsão, quando o sintoma sobrevive a abstinência.
Faça parte do meu grupo de WhatsApp gratuito.



Comentários