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Se Não Há Cura para a Droga... "Cure" a Si Mesmo

Atualizado: 2 de ago. de 2025


Um testemunho fiel da prática psicanalítica na minha vida.

 

Um dos aspectos que mantém o dependente químico preso à substância é simples, mas devastador: a droga se torna seu referencial máximo de prazer e alívio para as angústias que carregam a vida.

Nada parece resistir à descarga dopaminérgica provocada pela droga, especialmente na primeira dose do dia. É uma sensação avassaladora: prazer puro, imediato, quase impossível de comparar, porém, momentâneo e ilusório. Eu mesmo já disse, na hora da primeira dose: “Não tem nada mais gostoso do que isso.” Naquele instante, a droga percorre o corpo com uma sensação de bem-estar que, para quem sofre, parece ser a única saída possível.

Mas aqui começa a tragédia: o prazer é imediato, mas também é efêmero. Logo, a realidade da droga se impõe: loucura, descontrole, psicose e neurose — sintomas que se infiltram no cotidiano até o sujeito perder a si.

 

Existe cura para a dependência química?

Essa é a pergunta que ecoa em toda família destruída pelo uso, e na mente de cada dependente que deseja um recomeço.

Mas eu devolvo outra pergunta: do que o dependente precisa ser curado?

➤ Da droga como fonte de prazer e alívio?

➤ Ou das angústias emocionais, psicológicas e psíquicas provocadas pela falta e que o empurram para a droga como uma promessa ilusória de conforto?

No meu fundo de poço, eu era um jovem repleto de dores, traumas, tensões, medos, culpas (principalmente pela morte do meu pai), pânicos e pulsões. Eu não havia conseguido ressignificar a vida através do desejo e me perdi na angústia da falta. A droga era minha vida. Eu vivia para usar e usava para viver. Era um ciclo sem fim: minhas dores me levavam à droga, e a droga me devolvia às dores. Até que chegou o dia do grito: “Me interna!” — minha confissão de impotência após 16 anos de uso.

 

 

Cura na psicanálise: um outro olhar.

Na psicanálise, cura não é um retorno a uma suposta normalidade (até porque ela não existe), nem um “ensino” que o analista oferece ao analisando. Freud já dizia que “o objetivo da análise é transformar a miséria neurótica em infelicidade comum” (Freud, 1895), ou seja, aliviar o peso do sintoma, não fabricar um sujeito perfeito.

Cura significa redução das dores psíquicas — da culpa, da raiva, da angústia, do trauma — e pode ser entendida de duas formas:✔ Qualitativa: mudanças no estado de consciência.✔ Quantitativa: redução do quantum de sofrimento.

 

Quando a cura começa?

A cura começou quando, pela primeira vez, eu coloquei para fora minhas angústias, culpas, fetiches e delírios. Falar foi libertador. E quanto mais eu externalizava e elaborava esses conteúdos, mais a obsessão e a compulsão diminuíam. A droga foi perdendo a referência de prazer e alívio porque eu estava tratando a raiz — e não apenas o sintoma.

 

O objetivo fundamental da psicanálise é tornar consciente o inconsciente, permitindo que o sujeito se veja, se aceite e se responsabilize pelo seu desejo.

 

Então, onde entra a droga?

Assim como nada resiste ao prazer imediato da droga, nada resiste à consciência e aceitação de si mesmo. A droga se torna caduca, obsoleta, um agente desnecessário para lidar com a dor. Porque, no fundo, a dependência química não é apenas sobre substância — é sobre doenças psicogênicas, as doenças da alma.

Quando você se trata, quando olha para si com honestidade e busca ajuda, a droga perde poder sobre você. Ela deixa de ser o “remédio” e revela sua verdadeira face: destruição.

 

Se não há cura para a droga, cure a si mesmo.Aceite-se. Ame-se. Trate-se. Quando isso acontece, sobram poucos motivos para que a droga tenha espaço na sua vida.


Por Luciano Ribeiro — Terapeuta em Dependência Química | Estudante de Psicanálise


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