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O familiar como “cuidador compulsivo”

Atualizado: 23 de dez. de 2025




Quando o cuidado esconde um gozo inconsciente.

Na vivência com um dependente químico, é comum encontrarmos familiares que se dedicam intensamente ao cuidado, marcam consultas, controlam horários, vigiam amizades, escondem dinheiro, pagam dívidas, e vivem em função da recuperação do outro. À primeira vista, tudo isso pode parecer apenas amor e dedicação. No entanto, a psicanálise nos convida a escutar algo mais profundo.


Quando o cuidado ultrapassa o cuidado.

Segundo Lacan, o gozo pode se manifestar em lugares inesperados, inclusive na posição de quem cuida. Isso significa que o familiar pode, sem perceber, extrair um prazer inconsciente ao ocupar o lugar de "salvador" ou "responsável". O problema é que, muitas vezes, essa posição impede que o dependente assuma a própria responsabilidade subjetiva e mantenha o ciclo da dependência funcionando.


O cuidador e o fantasma da indispensabilidade.


Esse cuidado obsessivo pode esconder o temor de perder o lugar que sustenta o laço familiar: “Se ele melhorar, quem serei eu?”. Assim, o sofrimento do outro passa a garantir o sentido da própria existência. Em termos psicanalíticos, o sujeito se identifica com o sintoma do outro e faz do cuidado uma compulsão própria.


A falsa ilusão de controle:


Ao tentar controlar o comportamento do dependente, o cuidador compulsivo busca controlar também sua própria angústia. A dependência do outro se torna o álibi para não olhar para si. Assim, o familiar permanece alienado na dor do outro, evitando o confronto com a sua própria falta.


Quando o cuidado adoece:


É importante diferenciar o cuidado que sustenta do cuidado que aprisiona. Cuidar também pode significar permitir que o outro se responsabilize por si. Romper com a posição de “cuidador compulsivo” exige um processo de escuta interna, de reconhecimento dos próprios limites e de resgate da autonomia emocional.


“Há familiares que cuidam tanto do outro que se esquecem de si, mas, no fundo, talvez seja disso mesmo que estejam fugindo.”


Por Luciano Ribeiro, Terapeuta em Dependência Química | Estudante de Psicanálise


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