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Quem é você sem a droga?


Uma das perguntas mais difíceis no processo de recuperação não é “como parar de usar”, mas quem eu sou sem a droga.Quando a substância sai de cena, algo maior aparece: um vazio identitário, uma sensação de estranhamento consigo mesmo, como se a pessoa não soubesse mais de onde vem nem para onde vai.

Isso acontece porque, durante muito tempo, a droga não foi apenas um hábito, ela foi uma forma de existir.


Quando a droga vira identidade


Ao longo dos anos, a droga deixa de ser apenas uma substância e passa a ocupar lugares fundamentais da vida psíquica. Ela organiza o dia, regula emoções, define vínculos, cria pertencimento e oferece uma narrativa para o sofrimento.

O sujeito não é apenas alguém que usa droga, ele passa a se reconhecer a partir dela:

  • “sou o que aguenta mais”,

  • “sou o que não sente”,

  • “sou o que vive no limite”,

  • “sou o que não precisa de ninguém”.

Quando a droga sai, essa identidade desmorona.


E o que sobra não é liberdade imediata, mas desorientação.


O vazio que aparece não é falta de caráter


Muitos confundem esse vazio com fraqueza ou incapacidade. Na verdade, ele revela algo mais profundo: a identidade do sujeito foi construída em torno do uso.Sem a droga, ele precisa se encontrar com partes de si que nunca foram desenvolvidas: emoções, desejos, limites, frustrações.


É comum ouvir:


  • “Não sei o que gosto”,

  • “Não sei o que quero”,

  • “Não sei quem eu sou”.


Essas falas não são resistência. São sinais de que a pessoa está, pela primeira vez, diante de si mesma sem anestesia.


A droga como atalho para ser alguém


A droga oferece algo sedutor: uma sensação imediata de identidade.Ela dá coragem, pertencimento, intensidade, alívio, controle ou esquecimento.Para quem nunca conseguiu sustentar essas experiências de forma natural, a substância vira um atalho para existir.


Por isso, retirar a droga sem trabalhar a identidade deixa o sujeito perdido.Ele não recai apenas pelo prazer, recai porque não sabe ainda quem é sem aquilo.


A reconstrução da identidade na recuperação


Recuperar-se é mais do que abandonar a substância.É construir uma identidade que nunca teve espaço para nascer.


Isso exige:


  • tolerar o desconforto de não saber quem se é,

  • experimentar a vida sem intensificadores artificiais,

  • reconhecer emoções simples,

  • aceitar limites,

  • construir desejo de forma gradual,

  • aprender a se frustrar sem se destruir.


A identidade não retorna pronta. Ela se forma aos poucos, na relação com o cotidiano, com o outro, com o trabalho terapêutico e com a própria história.


Quem você é sem a droga não é quem você era antes dela


Esse é um ponto essencial.A recuperação não é um retorno ao passado.Não é “voltar a ser quem era antes”.


Quem você é sem a droga é alguém novo, que integra sua história, suas feridas, suas quedas e suas escolhas.Alguém que não precisa mais se anestesiar para existir.


Conclusão

A pergunta “quem é você sem a droga?” não exige uma resposta imediata.Ela exige tempo, escuta e reconstrução.


A droga ocupou um lugar que a identidade ainda não tinha conseguido ocupar sozinha.Quando esse lugar começa a ser preenchido por sentido, palavra e presença, a substância perde sua função.


Recuperar-se é isso:não apenas parar de usar,mas aprender a existir sem precisar fugir de si mesmo.


Por Luciano Ribeiro Terapeuta em Dependência Química, formação em Psicanálise


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